Deriyke sorri encabulado. Timidamente responde:


– Agradeço por mais esse ensinamento. Mas algo ultimamente vem me amargurando. Tenho como dever cuidar da parte externa da casa. Isso significa manter o jardim sempre limpo, florido e livre de ervas daninhas. Nos últimos meses os gramados encheram-se de uma praga terrível. Por mais que eu tente eliminá-la, não estou dando conta. Todo o dia vou para o jardim e vejo o quanto ainda falta. Confesso que já estou desanimando. Sinto-me derrotado perante a minha família!

Hamah olha carinhosamente para o jovem. Levanta-se, pedindo que Deriyke o acompanhe.

A praga está realmente disseminada. Dentro de pouco tempo tomará definitivamente conta do jardim.

O sábio dirige-se para um dos cantos do gramado. Faz uma marca no chão, delimitando uma pequena área. Agacha-se e começa a arrancar todo o mato que encontra no espaço demarcado.

O jovem, mesmo não entendendo muito bem o que o amigo pretende, agacha-se também ao seu lado. Por momentos assim ficam, calados, apenas arrancando as pequenas ervas daninhas.

Em pouco tempo toda a área previamente demarcada está limpa. A grama ressurge, brilhante e viçosa.

– Chega por hoje! Amanhã cedo voltaremos, para continuar a nossa tarefa  diz Hamah, colocando o braço sobre o ombro do jovem.

Ao alvorecer, quando Deriyke chega, o viajante já havia demarcado outra área.

– Bom dia! Madrugou para fazer um serviço que não é sua obrigação, mas minha. Pelo que vejo, o seu trabalho rendeu!

– Bom dia, meu filho. Vejo que a preocupação fez com que levantasse cedo.

– É verdade. A preocupação mal me deixa dormir. Tinha prometido a mim mesmo que a grama estaria linda no dia da festa do Santo de Tammyiá. Hoje, portanto. Tenho trabalhado muito para dar essa alegria à minha família. Mas, a cada dia que passa, sinto-me desmotivado, vendo o quanto ainda falta para arrancar.

Hamah levanta-se e caminha em direção ao jovem. Segurando-o pela mão, leva-o à beira do poço, convidando-o a sentar-se.

O viajante fixa o olhar em Deriyke e, calmamente, começa a falar:

– Meu filho. Esse sentimento é muito nocivo ao ser humano. É completamente impossível terminar-se um trabalho antes mesmo de tê-lo iniciado. Nada se consegue nesta vida sem esforço e determinação. Todas as manhãs, quando inicias a tua tarefa de combater a praga, olhas para o que falta fazer e não para o que já fizeste. O segredo é fazer exatamente o oposto. Esquece o que falta fazer e olha sempre para o resultado do que já fizeste. Se te concentras na praga que ainda falta arrancar estarás olhando apenas para o lado negativo do teu trabalho. Isso certamente dará ao teu espírito uma sensação de desânimo, fraqueza e derrota. Mas, se ao contrário, olhares para o resultado do teu serviço, ou seja, para as áreas já limpas, verás a grama livre da praga, crescendo verdejante e viçosa. Essa imagem positiva servirá como alento e motivação para continuares a tarefa, de forma produtiva e feliz.

O jovem, pensativo, olha para um lado e para o outro conferindo, na prática, o ensinamento que acabara de receber.

– Vejo que tem razão! Ao olhar agora o pedaço que ambos limpamos, sinto ânimo para continuar. Aquela área de grama viçosa transmite, realmente, uma sensação de vitória. Sinto que o esforço não foi em vão, e me dá certeza que posso cumprir minha tarefa. Agora é só uma questão de tempo. Mas não entendi uma coisa  continua o jovem  por que demarcar uma área antes de iniciar o trabalho?

Hamah abre um sorriso e pousa suavemente sua mão sobre as mãos de Deriyke. Sabe que os ensinamentos estão atingindo terra fértil e que é importante continuar.

Extraído do livro "Hamah -  O mago das energias" de Luiz Viegas

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