Ensinamentos e histórias de Hamah



O verdadeiro significado da vida

Hamah caminha por uma estrada de terra cercada por lindos vales.
Aproxima-se de um pequeno riacho, cujas águas cristalinas e revoltas ecoam aos ouvidos do viajante como canção de boas-vindas.
Segue absorto, concentrado nas maravilhas da natureza. Mentalmente agradece a Deus, único artista capaz de criar um cenário tão naturalmente belo e suntuoso.
Envolvido pelo mavioso canto das aves e pela beleza do lugar, não dá conta de que se aproxima de antigo palácio, onde um jovem jardineiro cuida de um gramado, rodeado de belas e frondosas árvores.
Hamah sente-se cansado e com sede. A presença de alguém o incentiva a parar um pouco. É seu costume saudar as pessoas que encontra no caminho.
Saúda o jovem jardineiro e senta-se à sombra de uma imensa árvore.
O jardineiro retribui e lhe oferece água fresca. Aproveita para descansar, sentando-se ao lado de Hamah.
– De onde vens viajante? Pareces muito cansado.
– Venho de muito longe! Se olhares para o horizonte verás o céu beijar o mar. É de lá que venho.
O jovem vira o olhar para os lados do mar procurando enxergar além do horizonte. Seu corpo parece querer voar. O brilho dos olhos mostra claramente que é lá que gostaria de estar. Longe! Para além do muito longe! Poder viver tudo o que aquele viajante vivia em suas andanças pelos caminhos do mundo.
Após alguns instantes o jovem volta-se para Hamah. Com os olhos parados, como que procurando preservar as belas imagens com que por alguns instantes sonhara, diz:
–Invejo a tua vida! Enquanto te divertes passeando pelo mundo e conhecendo muita gente, eu sou obrigado a ficar nesta monotonia, cuidando destes jardins. Todo dia a mesma coisa! Colho frutas, corto galhos velhos, arranco mato, adubo a terra, planto árvores que não são minhas e das quais não tiro nenhum proveito!
Hamah levanta-se lentamente. Sem dizer uma palavra, dirige-se a uma macieira. Colhe duas maçãs. Retorna, sentando-se ao lado do jovem que o olha silencioso e desconfiado.
– Toma! Saboreia esta maçã enquanto eu mato a minha fome com esta outra.
Sem entender muito bem, o jovem pega a maçã com desinteresse. Não está atinando aonde aquele velho quer chegar. Afinal, o que sempre faz é comer maçãs! É só ter vontade e come quantas desejar.
Percebendo o que se passa na mente do jovem, Hamah continua:
– Peço-te que comas essa maçã de um jeito diferente do que fazes costumeiramente.
– Não entendo! Como posso comer esta maçã de forma diferente?
– Antes de começar a comer, procura observar as suas cores. Sente a forma e textura. Inala o aroma que dela se desprende. Procura sentir o lugar por onde ela se prendia à árvore mãe e por onde recebia a seiva da vida. Põe uma semente na palma da mão. Lembra-te que essa semente está viva. Sente a energia dessa vida. Visualiza essa semente brotando e gerando uma enorme macieira. Pensa que essa nova macieira, além de servir de abrigo aos ninhos das aves, servirá também aos viajantes, proporcionando-lhes sombra com seus ramos e alimento com seus frutos.
O jovem, que já começara a comer a maçã, para e olha surpreso para o velho, que continua com as suas reflexões.
– Lembra-te ainda que tudo isso é fruto do trabalho que tanto menosprezas. Afirmo-te que foi a beleza do teu jardim e a sombra amiga destas árvores que tuas mãos plantaram que me atraíram até aqui. Não fosse isso, por certo eu teria continuado o meu caminho e nós dois teríamos perdido, quem sabe, talvez a única oportunidade de cruzarmos nossos destinos. Continua, pois, meu jovem, a tratar do teu jardim com muito amor. Enche-o de árvores coloridas e frondosas. Oferece os seus frutos e sua sombra a quem por aqui passar. Estarás, assim, contribuindo para a felicidade dos viajantes, e serás sempre lembrado nas histórias que contarão aos filhos e aos filhos de seus filhos. Foi essa a forma que escolheste para ser útil à humanidade. Construirás a tua felicidade através da felicidade que os viajantes sentirão ao sentarem sob tua sombra, beberem tua água e saborearem teus frutos. Teu nome, e principalmente tua energia, seguirão com eles. Dentro dos seus corações, chegarás muito longe. Além, muito além do que a tua vista e tua alma jamais sonharam alcançar. Estarás vivo enquanto tua história estiver sendo passada de boca em boca, de coração a coração. E quanto maior for a tua bondade e o bem que fizeres a quem por aqui passar, mais corações conseguirás tocar, e por mais tempo se lembrarão de ti. Dessa forma meu jovem, através do trabalho que hoje julgas desagradável e de pouco valor, chegarás à eternidade. Permite-me beijar tua mão em agradecimento por estes instantes de felicidade que me proporcionaste. Lembra-te que apenas foram possíveis em razão do teu trabalho, dedicação e amor.


Extraído do livro "Hamah, o Mago das Energias" de Luiz Viegas

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